IV Circuito do Maracanã
4,5 e 6 de Março de 1955



Vasco Sameiro iniciou a temporada desportiva de 1955 com a participação no IV Circuito do Maracanã, uma prova que já tinha vencido em 1953, ao volante do Ferrari 225 S #0198ET. Desta vez participou com o Ferrari 735 S #0444MD. Embora com a concorrência de Henrique Casini, Vasco Sameiro e o 735 S formavam um conjunto forte, tendo em conta os automóveis de que dispunham na época os pilotos brasileiros. Estes não tiveram qualquer tipo de cerimónia em afirmar que a com a presença de Sameiro e do Ferrari que dispunha, eles iriam ser meros figurantes. E essa resistência manifestou-se desde logo quando a Alfandega Brasileira colocou grandes entraves à entrada do carro no País. Devido ao facto de Sameiro sempre ter tido facilidades em desembarcar os seus carros em terras Brasileiras, e normalmente regressar a Portugal sem eles, já que os acabava por vender no Brasil. Sameiro obteve um documento do Cônsul de Goa onde se comprometia a voltar com o carro para Portugal no prazo máximo de um ano, para além do próprio Automóvel Clube do Brasil, para desbloquear a situação, ter emitido um documento onde assumia a responsabilidade de que o Ferrari não seria vendido a nenhum piloto Brasileiro.
Sameiro declarou na época ao jornal "O Volante":
“Não recebi nenhum convite oficial do Automóvel Clube do Brasil e tanto quanto sei não o fizeram a nenhum piloto Estrangeiro. Decidi viajar espontaneamente a fim de retribuir as gentilezas do ACB, do público Brasileiro e da comunidade Lusa radicada aqui”.
A corrida em que Sameiro participou era da categoria "Esporte Internacional", que tinha honras de corrida principal do programa, e que era constituída por 60 voltas ao traçado de 1850 metros, desenhado nos arruamentos à volta do estádio do Maracanã.
Nos primeiros treinos disputados no dia 4 de Março, Sameiro rodou em 56,80s, conseguindo o melhor tampo absoluto, com uma vantagem de cerca de cinco segundos para o segundo classificado.


Esta vitória portuguesa foi reforçada pelo facto do 735 S de Sameiro estar equipado com pneus MABOR.

Na corrida, o 735 S de Sameiro mostrou desde logo que salvo algum imponderável, a vitória era certa. O ritmo adoptado pelo piloto de Braga foi desde o início particularmente vivo, conseguindo logo à décima quinta volta o tempo de 56,00s, claramente a melhor volta até então. Na penúltima volta, Sameiro fez o tempo de 54,00s, batendo a volta mais rápida (por mais de dois segundos) que lhe pertencia desde 1953.
No final, Vasco Sameiro venceu a corrida, cumprindo as 60 voltas com um tempo de 58' 42'',02, deixando Celso Lara Barberis (2º), Henrique Casini (3º) e Arthur Souza Costa/Júlio César Albino, a duas voltas.

A imprensa brasileira ficou rendida ao piloto português:
 “Sim, os adversários tinham esperança de brilhar, mas somente numa condição: se o carro de Sameiro se negasse. E veio a torcida de todos os que, a cada volta do Luso ficavam esperando que a máquina apresentasse defeito e parasse na seguinte. E a prova prosseguia nesse ambiente, com Vasco Sameiro tranquilo e confiante na sua máquina. Não se limitou a ganhar distância cada vez mais mas sim limitou-se a correr de acordo com o panorama que o envolvia e de forma a fornecer um bom espectáculo. Era essa a preocupação de Sameiro. A única. Dando ao público, como sempre, a sua maior atenção. Sameiro procurou evitar que as posições se definissem inexoravelmente. Correu para permitir as sensações ao povo, mas seu objectivo não foi atingido. Fez o que bem entendeu e ganhou com absoluta facilidade. Demonstrou que ainda é um elemento de peso e que se algumas vezes na sua carreira mais não fez deveu-se ao inesperado. O vencedor foi farta e justamente aplaudido. Bem mereceu. Foi carregado em triunfo, inscrevendo o seu nome numa prova que agradou em cheio. É ainda um mestre!”.

No final da corrida, Vasco Sameiro teve ainda tempo para provar ser um bom negociador, pois ao ver limitadas as suas pretensões à venda do seu Ferrari a pilotos brasileiros, acabou por fazer negócio com Herbert MacKay Frazer, nascido no Brasil (Rio de Janeiro), mas com nacionalidade norte-americana, contornando desta forma as limitações impostas à venda do Ferrari a um cidadão brasileiro. Como MacKay Frazer tinha intenções de competir na Europa, o #0444MD acabou por embarcar para Portugal poucos dias depois da corrida do Maracanã, ultrapassando desta forma a outra limitação imposta de o carro não puder ficar em terras brasileiras mais de um ano.

Em declarações ao jornal "O Volante", Sameiro referiu-se assim à vitória no circuito do Maracanã:
 “O Circuito do Maracanã, traçado em boa pista, é curto mas muito interessante. Dado o seu pequeno perímetro, o público está constantemente em elevado grau de emotividade, assistindo a todas as peripécias das provas”. (...) “Os Portugueses que lá estão emocionam-me com o seu entusiasmo, os Brasileiros, que me tratam como se Brasileiro fosse, vivem os meus triunfos com a mesma alegria". (...) “Sinto-me absolutamente na plenitude dos meus recursos. Está tudo em bom estado. No dia em que verificar a falta de qualquer dos predicados essenciais – resistência física e moral, reflexos, controle e disciplina de nervos – abandono a competição. Será um dia muito triste, muito amargo, mas não hesitarei nem cederei a influências estranhas”.

____________________________________

Outros destaques